terça-feira, 1 de março de 2016

O REI SECRETO DE FRANÇA – Rubem Braga:

“EM PARIS há coisas que a gente não entende bem, pois houve reis, imperadores e revoluções, de maneira que acontece, por exemplo,
que no túmulo de Maria Antonieta não tem Maria Antonieta.
- Mas este é o verdadeiro túmulo de Maria Antonieta – dizia o velho guarda.
Acontece que logo depois de executada ela foi enterrada em certo lugar;
mais tarde retiraram seu corpo e lhe deram sepultura de honra,
mas depois as coisas viraram, de maneira que...
O HOMEM estava distraído, olhava o relógio, não ouvia o que lhe dizia o velho guarda.
Era primavera em Paris, era primavera no mundo, era primavera na vida.
E havia ali perto uma pequena rua tranquila com um velho casarão discreto onde chegaria alguém dentro de meia hora – meia hora ainda! O homem suspirava olhando o relógio, contemplando vagamente o túmulo, ouvindo silvos de trens para os lados da gare de Lyon e vagos pios de pássaros nas árvores; o guarda se calara. Muito bem, reis mortos, reis postos, os franceses outrora tinham reis chamados luíses numerados, e rainhas e cortesãs, frases de espírito, revoluções, ‘finesse’ e tudo isto lenta, lentamente foi permitindo a formação de criaturas como aquela velha ‘concierge’ de cabelos brancos e gargantilha alta, solene como uma imperatriz, que já conhecia o casal de amantes e dizia:
- O 14, não é? Vou ver se está livre o 14...
ERA um apartamento imenso, com um banheiro imenso, com uma banheira imensa,
um leito imenso; era um apartamento de frente na ruazinha quieta,
e pelas cortinas se filtrava uma pálida luz.
- O senhor não deseja ver a cripta onde estiveram os ossos?
TERIA sido realmente bonita Maria Antonieta? De qualquer modo foi uma judiação matarem a moça; mas também se os franceses não fizessem a Revolução Francesa, quem iria fazer? Os portugueses? ‘Jamais’, ‘jamais de la vie’. O homem sentia-se meio tonto com os conhaques que tomara fazendo hora para o encontro na ‘Maison de Famille’, que era o que estava escrito no casarão do encontro.
QUE estivesse livre o 14! Pensava aflitamente nisso, mas sua aflição era outra em que não ousava pensar, era ver repetir-se o milagre daquela aparição
bom-dia, esperou muito? – a mais fina e bela mulher da França saltaria de um velho táxi escuro com seu vestido leve, primaveril, sua pele macia, seu gosto de romã de-vez, os olhos azuis – ah, foi preciso muito luxo, como esse de matar rainhas, para se produzir uma graça tão alta – e esse milagre extraordinário, essa fantasia de vir ao seu encontro, e ele então se sentia o rei secreto da França – não é verdade que uma vez, ao entrarem em uma ponte, em carro puxado a cavalo, a brisa jogara sobre suas cabeças, de um ramo alto, uma chuva de flores? Rei coroado; mas na França, país perigoso, França, aqui se matam reis.
DE SÚBITO viu que era tarde, deu dinheiro ao guarda, desceu escadas, quase correu pela rua, chegou, então viu que ainda era cedo; suspirou. E se ela não viesse, não pudesse vir ou não quisesse vir, que fazer com aquela rua quieta e aquele céu azul e aquela brisa mansa, e aquele corpo e aquela alma trêmula? – tomou mais dois conhaques, sua mão trêmula suava, entretanto era homem, não era um adolescente, era rei. E quando ela chegou e disse que aquele encontro era uma despedida, que devia partir para remotas suécias, talvez nunca mais se vissem e, ao sair, disse: Meu Deus, preciso falar ao telefone: e então quando ela se afastou e ele entregou a chave do 14 à velha ‘concierge’, e lhe pagou em dobro o apartamento, já que era a última vez, a última vez!
- Senhor – disse a dignitária de altas gargantilhas agradecendo – eu lhe digo, senhor,
não sei vosso nome nem quem sois, mas eu lhe digo – tenho mais 70 anos e tenho visto muita coisa: nunca, por nada, perca essa mulher: é a mais linda da França e do mundo,
o senhor tem sorte, senhor, roube, faça tudo, mas não a perca nunca, nunca.
QUANDO ela saiu da cabine de telefone o táxi estava na porta, e foi apenas o tempo de lhe beijar a mão – mal se olharam – ela entrou no feio carro alto e escuro – tinha tanta pressa e chorava, a futura Rainha da Suécia, das distantes suécias e noruegas do nunca mais.”
 
 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Dez lições de estilo por Sonia Rykiel

A estilista francesa e  emblemática dos anos 1970, Sonia Rykiel ficou famosa por seu trabalho com o tricô (antes dela todos os tricôs do mundo eram iguais), suas criações em malhas listradas, seu engajamento pela liberação das mulheres e suas modelos que desfilavam sorridentes e saltitantes, enquanto a regra ditava posturas mas contidas nas passarelas.
Saiu na revista Elle inglesa uma pagina com as dez lições de estilo da Sonia Rykiel, que escrevo abaixo:
 
1. Se conheça: ache o que tem de mais legal para mostrar e o que pode ser escondido, tipo gaste tempo em frente ao espelho.
2. Use a cabeça: ter estilo é prestar atenção na rua, na política, no mundo.
3. Lembre-se do poder do preto: a cor “delineia” a pessoa.
4. Acrescente um brilho: lembre da importância dos acessórios no vestir, eles são fundamentais.
5. Tenha um look super-seguro: é importante ter uma roupa que sempre dá certo pra você, que te da certeza de estar bonita – pra quando tiver uma pressa e tal.
6. Aprenda a arte de fazer malas (ela sempre viaja com jaquetas e calças em cores coordenáveis, para durante a viagem só misturar umas com outras.
7. Deixe seus pés falarem: sapatos incríveis fazem um look – e são super definidores de estilo.
8. Se vista pra você mesma: a moda é importante, mas a maneira como você vive conta muito mais. Uma mulher deve ser ela mesma e deve se vestir de acordo com quem ela é.
9. Seduza no seu estilo: é muito natural ser sexy e ser sedutora, ao prestar atenção em comprimentos e cores boas, voce seduz sem deixar de ser autêntica. Todo mundo tem o seu sex-appeal, seja mais “padrão” ou não.
10. Ignore conselhos de outras pessoas: Não peça conselhos pra ninguém, muito menos pros namorados e maridos – voce tem que se conhecer e pronto.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Receita de alguns drinks com vinho!

Amo experimentar novos drinks, com vinhos e espumantes ficam divinos. Coloquei abaixo  receitas fáceis, sem ingredientes complicados e que podem ser rapidamente feitas em casa. Então, pegue sua taça preferida, junte os amigos e comece a experimentar esses novos sabores!

Rossini: Ótimo para qualquer ocasião. Tem origem em Veneza e leva o nome do compositor Gioacchinno Rossini, conhecido principalmente pela ópera “O Barbeiro de Seville”.

   - 1  morango médio
- Açúcar (opcional)
- 100ml de espumante/prosecco resfriado
Triture ou amasse bem o morango num recipiente separado. Uma pitada de açúcar é opcional. Misture gentilmente com o espumante.
Mergulhe um morango se quiser enfeitar e aproveite.

Clericot de Frutas Vermelhas: Versão da famosa Sangria é ótima para tomar os vinhos mais baratos da adega de um jeito diferente. A parte mais divertida da bebida é misturar, experimentar e criar novas combinações saborosas, e com o vinho não é diferente. Ótima maneira de degustar o vinho do dia-a-dia de uma nova forma.

- 200 ml de vinho tinto
- 15 ml de licor de frutas vermelhas
-Amoras e framboesas congeladas (utilizar 4 frutinhas de cada)
- 1 sachê de Poire (destilado de pêra)
Misture o vinho, o licor e as frutas congeladas. Não há necessidade de acrescentar gelo, pois as frutas já fazem essa tarefa. Para finalizar, adicione o destilado. Depois é só servir.

Arise My Love: Conhecido como Champagne Irlandês por causa da cor verde do drink, excelente opção para quem quer dar um toque diferente ao espumante com refrescância.

- 25ml de licor de menta
- 125ml de espumante/prosecco resfriado.
Adicione os ingredientes na taça. Misture gentilmente e saboreie!

Black Velvet: Diz a lenda que esse drink tem uma origem um tanto quanto mórbida. Foi criado por um bartender do Brook’s Club, em Londres (1861), como um símbolo de luto pela morte do Príncipe Alberto; por isso a cor preta. A Guinness geralmente é a opção mais popular para o drink.

- 25ml de cerveja Stout  (Guinness)
- 75ml de espumante/prosecco resfriado
Em uma taça de champanhe do tipo flute, coloque a Guinness e adicione o espumante. Decore com uma casca de limão.

Holy Bucket (Para 4 pessoas): Perfeito para festas, a mistura de vodka com energético é bastante popular na vida noturna. O espumante/champagne adiciona mais um toque de elegância e suaviza o sabor do energético, além de dar mais classe ao drink.

   - 100ml de vodka
- ½ garrafa de espumante/prosecco
- ½ litro de energético
- 1 laranja
- Cubos de gelo
Coloque o gelo num balde ou outro recipiente de médio porte. Adicione o espumante, o energético e a vodka.  Corte a laranja e adicione. Misture e sirva.

Limonada de vinho tinto: Perfeito para as altas temperaturas do verão brasileiro. Adocicado, refrescante, levemente frisante. Escolha um vinho tinto de baixo custo, mas que você conheça e aproveite!

- 2 colheres de chá de açúcar 
- 1 colher de sopa de suco de limão 
- 25ml de vinho tinto seco 
- soda
Num copo alto, dissolva o açúcar no suco de limão. Acrescente gelo e adicione soda até completar 3/4 do copo. Acrescente o vinho em seguida e deixe flutuar ou misture. A escolha é sua. Sirva em seguida.
 
(Fontes e imagens: receitas.ig.com.br, Cocktail Flow, drinksmixer.com)

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Em tempos de "Oscar"...

O filme "Brooklyn" é um drama com direção de John Crowley, baseado na literatura de Colm Tóibín e roteiro de Nick Hornby.  Foi considerado pela crítica como o melhor filme do Festival de Sundance (2015), indicado ao Globo de Ouro e ao SAG de Melhor Atriz, para Saoirse Ronan. Gostei do filme pela sensibilidade, pela reconstituição de época perfeita (1952), e Saoirse Ronan (como ela lembra com aqueles olhos azuis a Vivien Leigh) tem uma atuação perfeita. Tenho dúvidas com relação as premiações do "Oscar".

 
Enredo: Conta a história de Eilis Lacey (Saoirse Ronan), uma jovem que se muda de uma pequena cidade da Irlanda para o Brooklin, em Nova York, lugar no qual ela se esforça para construir uma nova vida, encontrar novas perspectivas de trabalho e o primeiro amor Tony (Emory Cohen), um encanador italiano. Uma tragédia na familia a leva de volta à Irlanda, ela vive um dilema - escolher entre ficar na mesmice da pequena cidade onde todos se conhecem, em companhia de Jim Farrell (Domhnall Gleeson) , ou voltar para os EUA.
 
Elenco: Saoirse Ronan; Emory Cohen; Domhnall Gleeson e Jim Broadbent, entre outros.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Mais um filme...

Dirigido por Tom McCarthy, o filme "Spotlight - Segredos Revelados" é baseado em uma história real, mostra o trabalho de uma equipe especial de jornalistas do jornal "The Boston Globe", que mostrou em 2002 como a Igreja Católica acobertou durante décadas a pedofilia de padres. Essa investigação jornalística aconteceu no inicio dos anos 2000, levando o grupo de jornalistas a vencer o Prêmio Pulitzer.  O filme tem o jogo de câmera excelente, fotografia no ponto certo dando sobriedade e um ar nostalgico que o tema requer, montagem no tempo exato de tela para cada personagem, os acontecimentos se alternam e dão um ritmo muito bom ao filme, trilha sonora da aquele bom clima ao filme, os diálogos bem escritos e o roteiro é correto. Destaque para Mike Rezendes (Mark Ruffalo) que se expressa com os olhos, com os lábios e com o corpo de um jeito diferente, sem ser caricato. Pode ir assistir sem medo!
Enredo: Um grupo de jornalistas em Boston reúne documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso.
 
Elenco: Marty Baron (Liev Schreiber); Walter Robinson (Michael Keaton); Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams); Mike Rezendes (Mark Ruffalo) e Matt Carroll (Brian d'Arcy James), entre outros.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

TENTAÇÃO

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
                                   Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
                                 Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
   Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
                                   A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
                                   Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
                                   Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
                                   Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
                                   No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
                                   Mas ambos eram comprometidos.
                                   Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
                                   A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.
                              Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás
(Conto extraído de LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999)
 
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Filme da Semana do Mulher Sim Senhora

O filme canadense-irlandês "O Quarto de Jack" (Room), dirigido por Lenny Abrahamson, escrito por Emma Donoghue, é baseado no livro com o mesmo nome. Logo de inicio o drama envolve pela forte relação entre mãe e filho, pelo fato do ser humano se adaptar, e diga-se de passagem muito bem, a qualquer situação, até mesmo ao cativeiro. Me comoveu a atuação de Jacob Tremblay que rouba a cena e assume o protagonismo, como poucas crianças já fizeram antes, merecia ganhar o "Oscar". Brie Larson também brilha e vai brigar pela estatueta no próximo dia 28 de fevereiro. Vá assistir, o filme é intenso, a criatividade do ser humano mostra que para viver bem am algumas ocasiões, basta uma televisão, livros e muitos sonhos.

 
Enredo: É a história de Jack (Jacob Tremblay), menino de cinco anos criado por sua mãe, Ma (Brie Larson) presos em um pequeno quarto de 10m². Ma se dedica a manter Jack feliz e seguro, apesar das adversidades do ambiente, a relação dos dois é de cumplicidade através de brincadeiras e histórias. Com o passar dos anos a curiosidade de Jack sobre a situação em que vivem aumenta, a resiliência de Ma alcança um ponto de ruptura, quando ela traça um plano de fuga.
 
Elenco: Brie Larson (Joy "Ma" Newsome); Jacob Tremblay (Jack Newsome); Joan Allen (Nancy Newsome); William H. Macy (Robert Newsome); Sean Bridgers (Old Nick) e Tom McCamus (Leo), entre outros.